Os Estados Unidos resolvem nomear o problema
Os Estados Unidos convidaram representantes de mais de sessenta países para discutir o ressurgimento do terrorismo político transnacional, com atenção especial às organizações violentas vinculadas à extrema esquerda. O encontro, organizado pelo secretário de Estado Marco Rubio, pretende promover a troca de informações, a cooperação entre serviços de inteligência e a elaboração de mecanismos para enfrentar assassinatos políticos, sabotagens, ataques contra agentes públicos e ações contra infraestruturas.
A iniciativa deveria ser recebida como aquilo que é: uma tentativa de reconhecer um problema antes que ele se torne uma calamidade impossível de esconder. Mas, em boa parte do Ocidente, reconhecer a existência de violência revolucionária de esquerda parece ser considerado mais grave do que a própria violência revolucionária de esquerda.
Governos, diplomatas e intelectuais que encontram fascismo até no desenho de uma colher mostram súbita deficiência visual quando a agressão parte de grupos que usam palavras como resistência, antifascismo, revolução ou justiça social.
O terrorista de esquerda desfruta de uma vantagem semântica. Quando incendeia um prédio, pratica protesto. Quando agride um adversário, reage à opressão. Quando ameaça um representante eleito, combate o sistema. Quando destrói patrimônio, expressa indignação. O crime permanece crime, mas recebe uma embalagem universitária, uma nota de rodapé e, às vezes, uma bolsa de estudos.
A Europa e a diplomacia da avestruz
Representantes de governos europeus reagiram ao convite norte-americano com dúvidas, reservas e sinais de desinteresse. Alguns alegaram falta de evidências suficientes para considerar a violência de extrema esquerda uma ameaça transnacional prioritária. Outros questionaram a formulação política da reunião e advertiram contra uma possível instrumentalização do contraterrorismo.
A prudência é indispensável quando o Estado emprega instrumentos de segurança. Nenhuma democracia deve permitir que divergência política, militância pacífica ou crítica social sejam tratadas como terrorismo. Contudo, prudência não pode ser confundida com cegueira voluntária.
Dados divulgados pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais indicaram que, nos Estados Unidos, os ataques e planos terroristas de esquerda cresceram durante 2025 e, pela primeira vez em mais de três décadas, superaram numericamente os episódios atribuídos à extrema direita naquele período. O próprio estudo advertiu que esses números partiram de uma base pequena e que outras formas de extremismo continuavam relevantes. Ainda assim, a conclusão básica é incômoda: o fenômeno existe.
Mas a Europa política aprendeu uma forma peculiar de administrar ameaças: primeiro nega, depois relativiza, em seguida organiza um seminário e, por fim, cria uma comissão para investigar por que ninguém agiu enquanto ainda havia tempo.
O continente que experimentou organizações como Brigadas Vermelhas, Fração do Exército Vermelho e Action Directe deveria saber que o radicalismo não deixa de ser criminoso porque seus manifestos citam filósofos. A bomba não se torna humanitária por carregar um panfleto contra o capitalismo.
A hesitação europeia também revela uma deformação intelectual. Durante décadas, parte das elites políticas e culturais construiu um vocabulário segundo o qual a violência da direita nasce do ódio, enquanto a violência da esquerda nasce do desespero. Uma deve ser punida; a outra, compreendida. Uma demonstra perversidade; a outra, excesso de idealismo.
Esse duplo padrão não combate o terrorismo. Ele fornece ao terrorista uma justificativa pronta.
Brasília e a arte de não responder
A situação brasileira é ainda mais constrangedora. Convidado para participar da reunião, o governo brasileiro não apresentou, até a divulgação inicial do caso, uma posição clara sobre o envio de representante. O Itamaraty avaliava a conveniência da participação, enquanto o compromisso internacional do ministro Mauro Vieira aparecia entre os fatores considerados.
É uma resposta típica da diplomacia petista: diante de uma questão moralmente simples, inaugura-se uma complexidade burocrática. Pergunta-se se o Brasil deve cooperar contra o terrorismo, e Brasília responde examinando a agenda do ministro.
Não se trata de aderir automaticamente a cada conceito formulado por Washington. O Brasil é uma nação soberana e deve preservar seus critérios jurídicos. Tampouco se deve aceitar que qualquer manifestação hostil ou movimento de oposição seja arbitrariamente enquadrado como terrorista.
Mas entre a submissão automática e o silêncio calculado existe uma alternativa conhecida como posição de Estado. Ela exige afirmar que violência política, sabotagem, assassinato, sequestro e intimidação organizada são inaceitáveis, venham da esquerda, da direita ou de qualquer fanatismo religioso.
O governo brasileiro, contudo, parece enfrentar uma dificuldade adicional. Condenar com clareza o terrorismo de extrema esquerda exigiria admitir que a extrema esquerda pode produzir terrorismo. Essa pequena obviedade destruiria décadas de mitologia partidária.
As amizades que explicam o silêncio
A hesitação brasileira não ocorre no vazio. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém proximidade política e diplomática com regimes autoritários, sobretudo Cuba e Venezuela, e cultiva relações com o governo iraniano. Nos casos de Cuba e Irã, ambos permanecem formalmente classificados pelos Estados Unidos como Estados patrocinadores do terrorismo. Essa é uma designação unilateral norte-americana, contestada principalmente no caso cubano, mas possui efeitos jurídicos e econômicos concretos na política externa de Washington.
A Venezuela não integra formalmente essa mesma lista, embora tenha sido apontada pelo governo norte-americano, em diferentes períodos, como país que não cooperava plenamente com os esforços de combate ao terrorismo. Logo, afirmar simplesmente que Caracas é um Estado patrocinador do terrorismo seria juridicamente impreciso. O que pode ser criticado é a tolerância do governo brasileiro com o autoritarismo venezuelano, a repressão a opositores e o enfraquecimento das instituições políticas.
Quanto ao Líbano, a generalização seria ainda mais inadequada. O Estado libanês não pode ser tratado, sem distinção, como patrocinador do terrorismo. O problema está relacionado ao Hezbollah, organização armada, partido político e força militar com atuação no país, apoiada pelo Irã e classificada como terrorista pelos Estados Unidos e por outros governos. Confundir o Hezbollah com toda a sociedade ou com todo o Estado libanês não fortalece a crítica; apenas a torna factualmente vulnerável.
Essas distinções, porém, não absolvem o governo brasileiro. Ao contrário, tornam sua omissão mais grave. Brasília poderia reconhecer as diferenças jurídicas e, simultaneamente, condenar organizações que recorrem à violência política. Poderia defender critérios objetivos e cooperação internacional sem abandonar a soberania nacional.
Não o faz porque sua política externa parece obedecer menos à coerência do que à memória afetiva do partido.
Ditaduras de esquerda recebem o tratamento indulgente reservado aos velhos companheiros. Seus presos políticos transformam-se em assuntos internos. Seus exilados desaparecem do discurso. Seus fracassos econômicos são atribuídos exclusivamente a inimigos externos. Sua repressão recebe uma vírgula diplomática, seguida de um longo discurso contra o imperialismo.
A moral seletiva do progressismo oficial
O governo brasileiro condena com rapidez qualquer manifestação internacional associada à direita, ainda que seja necessário atravessar oceanos de suposições para encontrar nela uma ameaça concreta. Mas, quando o problema envolve grupos revolucionários, aliados ideológicos ou regimes autoritários de esquerda, instala-se a cautela.
É a cautela seletiva, irmã diplomática da indignação seletiva.
A violência política não muda de natureza conforme a cor da bandeira. Um assassinato não se torna aceitável porque o assassino se declara antifascista. Uma bomba não adquire legitimidade por ter sido montada ao som de canções revolucionárias. Uma ditadura não se torna democrática porque nacionalizou empresas e pendurou retratos de guerrilheiros em seus ministérios.
O verdadeiro combate ao terrorismo exige abandonar o fetiche ideológico. Terrorismo é o uso sistemático da violência ou da ameaça contra civis, instituições ou representantes do Estado para produzir efeitos políticos. A definição pode exigir ajustes jurídicos, mas não depende da simpatia do observador.
Esse princípio deveria ser elementar. No entanto, o Brasil governamental vive numa época em que o elementar precisa pedir autorização ao partido.
O risco de politização não justifica a omissão
Os críticos da reunião norte-americana apresentam uma preocupação válida: instrumentos de contraterrorismo podem ser empregados contra adversários políticos legítimos. A classificação indiscriminada de movimentos como terroristas pode corroer liberdades civis, criminalizar protestos e ampliar poderes estatais sem controle.
Essa advertência deve ser considerada. Entretanto, ela não justifica abandonar o debate. Ao contrário, oferece ao Brasil uma razão adicional para participar.
Uma delegação brasileira poderia defender critérios jurídicos claros, exigir diferenciação entre militância política e violência organizada, cobrar provas de articulação transnacional e impedir que o combate ao terrorismo se transforme em perseguição ideológica.
A cadeira vazia não protege a democracia. Apenas entrega a outros governos o poder de formular as regras.
Ao permanecer calado, o Brasil não demonstra independência. Demonstra incapacidade. Não desafia os Estados Unidos, não influencia os europeus e não formula uma posição própria. Limita-se a observar, como quem espera descobrir qual resposta produzirá menos desconforto entre seus aliados partidários.
O dever de escolher a civilização
A iniciativa norte-americana pode conter excessos, interesses estratégicos e objetivos políticos. Toda iniciativa internacional contém. Isso não elimina a legitimidade de enfrentar redes que empregam violência em nome de uma ideologia.
O terrorismo de extrema esquerda não deve ser inflado para justificar abusos, mas tampouco deve ser apagado para preservar mitologias. Ele precisa ser investigado, identificado e combatido segundo a lei, com controle institucional e respeito às liberdades fundamentais.
Os governos europeus deveriam abandonar a presunção de que o extremismo desaparece quando recebe um nome politicamente conveniente. O governo brasileiro deveria superar sua fidelidade sentimental a regimes e movimentos que compartilham a gramática revolucionária de parte de sua base política.
O Brasil não precisa obedecer a Washington. Precisa apenas parar de obedecer aos próprios fantasmas ideológicos.
Quando uma democracia é convidada a discutir o combate à violência política, há perguntas legítimas sobre métodos, definições e garantias. O que não é legítimo é fingir que a ameaça não existe porque sua existência constrange os amigos do governo.
A civilização começa no instante em que o crime deixa de receber absolvição ideológica. E termina quando um governo precisa consultar sua cartilha partidária antes de condenar o terror.



