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Sociedade contemporânea amplia o desempenho e eleva o colapso psíquico

Da disciplina imposta ao imperativo de produzir sem parar: como a lógica do século XXI transformou o indivíduo em seu próprio algoz

Há um paradoxo silencioso habitando a rotina de milhões de pessoas: nunca se teve tanta liberdade para trabalhar de qualquer lugar, a qualquer hora — e nunca se esteve tão exausto. Smartphone na mão, notificações acesas, metas em cascata. O esgotamento mental, que antes tinha rosto e endereço — um chefe, uma fábrica, uma jornada demarcada —, hoje não tem origem clara. Veio de dentro.

O inimigo que migrou para dentro

É dessa inversão que parte o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han para construir um dos diagnósticos mais perturbadores da vida contemporânea. Para ele, a sociedade do século XX operava por proibições: havia fronteiras, autoridades, ordens vindas de fora. “Havia inimigos claros, fronteiras definidas”, afirma o filósofo. A repressão era visível — e, portanto, resistível.

O século XXI rompeu com essa lógica. Não há mais o patrão que dita o ritmo; há o aplicativo que mede a produtividade, a meta que o próprio trabalhador internalizou, o silêncio que pesa quando nenhuma tarefa está sendo cumprida. “Quando o inimigo externo desaparece, ele migra para dentro de você”, diz Han. O sujeito vira, ao mesmo tempo, carrasco e vítima de si mesmo.

“Você deixa de ser explorado por alguém e passa a se autoexplorar.”
— Byung-Chul Han, filósofo

Han batiza esse modelo de sociedade do desempenho — um sistema que não precisa de coerção porque o próprio indivíduo assume, com entusiasmo ou ansiedade, a tarefa de se superar continuamente. A exploração, nesse cenário, não deixa marcas visíveis. Ela aparece nos dados de saúde mental.

Os números de uma epidemia silenciosa

OMS, 2019 — A entidade classificou o burnout como fenômeno ocupacional, reconhecendo formalmente o que os consultórios de psicologia já acumulavam há anos.

A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade geram uma perda de produtividade global de cerca de US$ 1 trilhão por ano. Não se trata de estatística abstrata: são afastamentos, internações, vidas interrompidas ou reorganizadas às pressas. O custo humano é incalculável.

O Brasil ocupa posição de destaque nesse mapa do sofrimento. Levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) indica que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros apresentam sintomas de burnout — proporção que coloca o país entre os de maior incidência do problema no mundo.

O celular como extensão do sistema

Nesse cenário, o smartphone emerge não como causa isolada, mas como instrumento central de uma lógica maior. Dados da DataReportal mostram que os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia conectados à internet — parte significativa desse tempo em telas pequenas que cabem no bolso e nunca ficam em silêncio.

Para Han, o dispositivo é a materialização perfeita da sociedade do desempenho. “O celular oferece pertencimento imediato e estímulo constante”, afirma. Mais do que uma ferramenta de comunicação, ele é uma máquina de eliminar pausas — e, com elas, o espaço necessário para o pensamento se aprofundar.

“A modernidade eliminou a capacidade de contemplação.”
— Byung-Chul Han

Estudos da American Psychological Association (APA) reforçam essa leitura: jovens que usam redes sociais de forma contínua relatam maior dificuldade de concentração e níveis elevados de estresse. A atenção, fragmentada em mil notificações, parece já não conseguir pousar em lugar nenhum por tempo suficiente.

O silêncio que dói — e as soluções que não curam

Diante de um problema estrutural, o mercado oferece soluções pontuais. Retiros de desconexão, aplicativos de meditação, fins de semana de detox digital proliferam como resposta ao esgotamento. Han os vê com ceticismo. “Isso trata o sintoma sem tocar na causa”, sentencia.

A causa, para o filósofo, está na arquitetura da vida cotidiana — organizada, em cada detalhe, para que o indivíduo nunca precise se encontrar consigo mesmo. “O silêncio dói porque a vida foi organizada para evitar o encontro consigo”, afirma Han. Sem ruído, sobra a própria existência — e ela pode ser assustadora para quem aprendeu a se medir apenas pelo que produz.

Quando produzir se torna sinônimo de existir

Essa é talvez a dimensão mais inquietante do diagnóstico de Han: a transformação da identidade. Em uma sociedade que glorifica o desempenho, a pergunta “quem sou eu quando não produzo nada?” deixa de ser filosófica e passa a ser existencialmente ameaçadora. O valor pessoal cola-se ao rendimento — e o colapso, quando vem, carrega consigo a sensação devastadora de falha individual.

Mas Han recusa essa interpretação. “O colapso parece pessoal, mas resulta de um sistema que incentiva a autoexploração”, conclui. Não é o sujeito que falhou; é a estrutura que o atravessa que o conduz, passo a passo, ao limite.

O diagnóstico de Han aponta para uma transformação que não se resolve com aplicativos nem com férias. Exige repensar, em profundidade, como a vida foi organizada — e a que custo.

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