A Folia de Reis da Comunidade Quilombola Águas do Miranda mantém tradição há mais de cinco décadas e retorna neste início de 2026 com a realização da 39ª Festa da Folia de Reis. O evento acontece no sábado dia 10 e no domingo dia 11 de janeiro no distrito de Águas do Miranda em Bonito. A celebração nasce às margens do Rio Miranda, atravessa gerações e se firma como expressão de cultura popular negra em Mato Grosso do Sul. A comunidade prepara cantos, orações e encontros e reafirma memória e pertencimento.
Tradição comunitária e reconhecimento no território
A Folia de Reis ocupa lugar central no calendário cultural do distrito e assume posição de primeira grande celebração anual do município. A festa reúne fé, devoção, música, partilha e convivência comunitária. O Grupo Trabalho e Estudos Zumbi passa a apoiar a realização da festa por meio do Projeto Festividades Religiosas Saberes e Ancestralidade. O projeto recebe investimento da Política Nacional Aldir Blanc PNAB do Governo Federal por meio do Ministério da Cultura MinC e o Governo do Estado executa a ação através da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul FCMS. O projeto promove visibilidade, ações formativas e fortalecimento cultural e valoriza cultura negra e quilombola no território. A iniciativa segue apoio a outras festas religiosas de comunidades negras em Mato Grosso do Sul.
A voz da comunidade e o sentido da celebração
Kely Aparecida da Silva atua como cozinheira e organizadora da festa e descreve a Folia de Reis como espaço de reconhecimento coletivo. Ela afirma “A festa reforça a união da nossa comunidade. A gente pode ver e sentir a fé das pessoas. É um diálogo maravilhoso entre quem acredita, quem respeita e quem entende a necessidade de expandir a nossa crença”. Ela explica cada etapa da celebração e aponta o terço como marca do fim de uma caminhada que mobiliza dia e noite. Ela afirma “O momento do terço é muito importante, porque marca o término de uma caminhada que foi dia e noite para que a festa acontecesse. O jantar e a festa são o conjunto dessa caminhada, das casas onde a bandeira foi recebida. É o momento de comemorar”. Ela destaca a atuação das lideranças comunitárias e afirma “É mostrar até onde a fé pode chegar para juntar uma comunidade e proporcionar uma festa familiar, de diversão e união”.
Memória familiar e herança ancestral
A história da Folia de Reis em Águas do Miranda carrega memória familiar. Kely lembra o avô Amarílio Modesto da Silva, que leva a tradição da Bahia para Mato Grosso do Sul. Ela afirma “Ver esse reconhecimento hoje é muito importante e satisfatório. É reconhecer tudo aquilo que um dia meu avô trouxe com ele. A bandeira passou por Nioaque, voltou para ele e, então, a festa chegou a Águas do Miranda. Isso é ancestralidade viva”. A narrativa familiar se entrelaça com a trajetória coletiva da comunidade e mantém viva a herança cultural.
Apoio institucional e identidade cultural
Bartolina Ramalho Catanante conhecida como Professora Bartô atua como presidenta do Grupo TEZ e relaciona o apoio à festa com memória coletiva. Ela afirma “As festividades religiosas fazem parte da nossa vivência, da nossa infância, da nossa memória afetiva. Nas comunidades quilombolas e rurais, a Folia de Reis sempre foi um ponto de integração, de interação, de cantoria, de visita, de participação. Quando o TEZ participa dessa festividade, a gente revive e rememora a cultura popular que faz parte da memória ancestral do povo do interior e das comunidades”. Ela aponta afinidade histórica entre lideranças locais e o TEZ e afirma “Aqui existem lideranças e mestres preocupados em preservar a cultura, assim como o TEZ. O que esperamos é fortalecer ainda mais esse vínculo, essa participação e o fortalecimento da tradição quilombola. Há mais de 40 anos o TEZ faz isso de forma espontânea e, agora, com o apoio da PNAB, esse trabalho se fortalece ainda mais”.
Formação cultural e reflexão sobre a tradição
O projeto inclui ações formativas com oficinas e rodas de conversa. Bartô explica “Uma coisa é a manifestação cultural, outra coisa é refletir sobre essa manifestação: pensar o que está sendo feito, o que precisa ser fortalecido, principalmente entre a juventude. A atividade formativa cumpre esse papel de reflexão sobre a cultura viva nos territórios tradicionais”. Ela também afirma “Nossa natureza é combater o racismo e reafirmar que as pessoas negras têm identidade cultural, memória e história. Tudo isso compõe a cultura brasileira e sul-mato-grossense. Fortalecer essa tradição é fortalecer a negritude presente em cada comunidade, para que filhos e netos convivam com isso”.
Programação da 39ª Festa da Folia de Reis
A 39ª Festa da Folia de Reis da Comunidade Quilombola Águas do Miranda em Bonito MS acontece ao longo de dois dias e reúne fé, formação cultural, celebração popular e convivência comunitária.
Sábado dia 10 de janeiro de 2026
Às 18h30 ocorre a Reza do Terço sob coordenação de Amarílio Modesto da Silva e Ricardo Arguelho de Queiroz lideranças quilombolas da Comunidade Águas do Miranda.
Às 20h acontece o jantar coletivo preparado a partir das doações recebidas durante o giro da bandeira.
Às 21h30 ocorre Baile e Leilão em celebração da cultura popular e da união da comunidade.
Domingo dia 11 de janeiro de 2026
Às 8h ocorrem atividades no Teatro da Sanesul em Bonito.
Às 8h30 acontece a oficina Saberes Folia de Reis com Fernanda de Souza Reverdito da Casa Raída Bonito MS como palestrante e Amarílio Modesto da Silva do Quilombo Águas do Miranda como oficineiro.
Às 10h30 ocorre apresentação do Grupo de Capoeira Olodum de Nioaque MS sob condução do Mestre Viola Marcos José de Souza Barros.
Às 10h30 também acontece Baile e Leilão.
Às 12h30 ocorre almoço coletivo.
Às 14h acontece Baile.
Durante o dia ocorre torneio de futebol com integração, lazer e convivência entre moradores e visitantes.
Às 19h ocorre encerramento dos festejos.
Com informações: Assessoria



