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Governo hospeda a COP30 em navios e transforma Belém em laboratório de hipocrisia

Navios contratados para tapar o buraco da rede hoteleira

O governo federal decidiu que salvar o planeta pode começar queimando petróleo. Contratou dois cruzeiros, MSC Seaview e Costa Diadema, para servir de hotel a seis mil delegados da COP30 em Belém. A Embratur e o Ministério do Turismo garantem que a escolha resolve a falta de leitos na cidade.

Os navios ficarão parados no porto, mas os motores não descansarão. Funcionam com óleo combustível marítimo, aquele mesmo derivado de petróleo que a indústria tenta esconder sob o nome técnico de HFO. A Organização Marítima Internacional jura que há filtros capazes de reduzir noventa e nove por cento do enxofre. Falta combinar com a realidade.

Quem entende do assunto diz que cada embarcação dessas engole entre cinquenta e cem toneladas de combustível por dia, mesmo parada. Em troca, vomita até mil e quinhentas toneladas de dióxido de carbono, o equivalente a dezenas de milhares de carros. O governo não divulga os números oficiais, talvez por pudor.

O evento ecológico movido a diesel

ONGs como Greenpeace e WWF reagiram como seria de esperar: chamaram a ideia de absurda. Afinal, que outro símbolo melhor de uma conferência climática do que um par de chaminés cuspindo fumaça sobre a Amazônia? O governo, sempre criativo, promete ligar os navios à rede elétrica local e compensar as emissões depois. O verbo “compensar” virou o novo “esquecer”.

Os contratos, assinados pelo Ministério do Turismo e pela Infraero, preveem hospedagem, alimentação e transporte. A operação pretende aliviar a cidade e mostrar eficiência. Ambientalistas veem outra coisa: risco de despejo de efluentes e mais poluição nas águas do Guamá e da baía do Guajará.

Belém em obras e o meio ambiente em obras também

A preparação da COP30 virou um canteiro de obras e de discursos. O governo federal, junto com o estadual e o municipal, anunciou investimentos entre quatro e cinco bilhões de reais para reformar a cidade. A pressa foi tanta que o balanço oficial fala em noventa e oito por cento de conclusão antes do evento. O número parece ter sido medido com régua política.

As críticas começaram quando escavadeiras entraram nas áreas verdes. A duplicação e o prolongamento da Rua da Marinha, obra financiada pelo BNDES, eliminarão dezenas de espécies de árvores, entre elas algumas ameaçadas de extinção. A Avenida da Liberdade, construída em área de proteção ambiental, rasga o entorno do Parque Estadual do Utinga. Onde havia floresta, surgem asfalto e promessa.

O debate que ninguém teve tempo de fazer

Urbanistas e ambientalistas reclamam que a urgência atropelou o debate público. A arquiteta Ana Cláudia Cardoso, da Universidade Federal do Pará, resumiu o óbvio: negar o impacto ambiental não combina com o que se vê nos canteiros. A pressa para mostrar obra pronta vale mais que o cuidado com o território.

A desigualdade também entrou na conta. O programa de coleta de esgoto, vendido como legado da COP30, atenderá dez mil pessoas, apenas três por cento da população. A propaganda fala em quinhentos mil beneficiados. O abismo entre os números virou rotina na administração pública.

Relatórios de transparência mostram que licenças ambientais e contratos caminham na penumbra. Um deles autoriza a supressão de sessenta e oito hectares de vegetação, quase cem campos de futebol. É o preço da pressa travestida de progresso.

O discurso verde pintado de cinza

O governo repete que a conferência será um marco para o país e para a Amazônia. Sustenta que tudo segue padrões de sustentabilidade. As entidades civis observam, calculam e riem sem humor. O discurso e a prática não se falam há muito tempo.

A preparação da COP30 escancara o que o país faz melhor: transformar causa em espetáculo. Navios queimam combustível enquanto se fala de neutralidade de carbono. Árvores caem sob o som de palestras sobre preservação. O planeta assiste. O Brasil se justifica. E Belém respira o ar das promessas.

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