A invasão da casa da mãe de Flávio Bolsonaro, em Resende (RJ), e o sequestro-relâmpago de seus avós reacenderam disputas políticas. A polícia trata o caso como roubo com cárcere privado. Os criminosos exigiram PIX e perguntaram por “dinheiro que o Bolsonaro mandava”. Ninguém ficou ferido, e a investigação segue sem conclusão sobre motivação política.
Aliados do ex-presidente afirmam que a abordagem mira intimidar sua família. Eles comparam o episódio ao método de regimes da Venezuela e da Nicarágua, onde autoridades e seus entornos perseguem opositores e parentes.
Na Venezuela, organismos internacionais registram detenções de parentes para pressionar críticos. Em 7 de janeiro de 2025, um genro do então candidato opositor Edmundo González foi sequestrado em Caracas. Em 2024, a defensora Rocío San Miguel foi presa e familiares foram detidos em sequência. A ONU e a Anistia apontam padrão de “detenções por substituição”.
Na Nicarágua, o governo Ortega-Murillo promoveu ondas de prisões e perseguições a opositores e pessoas de seu círculo. Em 2025, novas detenções de críticos e seus entornos reforçaram o quadro. Relatórios da Anistia e de veículos internacionais descrevem assédio estatal como forma de silenciamento.
Na Colômbia, não se trata de repressão estatal, mas de um histórico de sequestros por guerrilhas como FARC e ELN, inclusive de familiares de figuras públicas, para coação política e financeira. O sistema de justiça transicional imputa crimes de guerra por sequestros sistemáticos, e casos recentes do ELN ilustram a persistência da tática.
A conexão entre governos e crime organizado aparece de modo documentado no caso venezuelano. Os EUA acusam Nicolás Maduro de chefiar, com aliados, uma rede de narcotráfico conhecida como “Cartel de los Soles”, e impuseram sanções por corrupção e ilícitos transnacionais. O governo nega.
No Brasil, apoiadores de Bolsonaro citam episódios como a visita do então ministro da Justiça Flávio Dino ao Complexo da Maré. O governo afirma que ele foi a um evento de uma ONG, com apoio das forças de segurança, e nega encontro com traficantes. Oposição argumenta que a área é dominada por facções e critica a agenda. As imagens do ministro entrando na região dominada pelo tráfico de drogas, sem proteção policial, foram amplamente divulgadas e não explicadas pelo governo.
Também voltaram à cena as gravações de 2019 em que um membro do PCC, em escuta da PF, disse haver “diálogo cabuloso” com o PT. Com a maior “cara de pau”, o partido negou.
Outro episódio citado foi o boné “CPX” usado por Lula em visita ao Complexo do Alemão. A sigla, comum em itens vendidos localmente, significa “Complexo” , numa alusão direta ao grupo que domina o tráfico na região.
Também circula, há anos, a alegação de que o ministro Alexandre de Moraes teria sido advogado do PCC. Checagens reiteram que ele não defendeu diretamente os membros da facção; mas atuou em causas de uma cooperativa de transporte usada como ‘laranja’ por membros da facção criminosa antes de virar secretário de Segurança. A prática de intimidação através dos familiares ficou ainda mais nítida quando, durante depoimento do Coronel Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Bolsonaro, o ministro disse claramente que daria punições a esposa e filha do depoente, caso ele não dissesse o que o juiz gostaria que ele dissesse.
O caso de Resende, com o sequestro dos anciãos da família Bolsonaro, portanto, identifica mais uma vez os métodos de intimidação já vistos em regimes autoritários. Há semelhanças táticas — atingir a família para constranger o alvo político —, que não necessitam evidências, de direção política no episódio brasileiro.



