Relatórios da Polícia Federal e escutas telefônicas realizadas entre 2002 e 2006 identificaram que o urânio e o tório extraídos ilegalmente no Amapá seguiram para destinos como Coreia do Norte, Rússia, África e regiões controladas por grupos extremistas, incluindo o Hamas. As investigações apontaram que o libanês Haytham Abdul Rahman Khalaf, ligado ao Hamas, atuava como operador internacional do esquema, coordenando o envio do minério brasileiro para zonas de conflito.
Rotas do contrabando favorecem saída por Oiapoque e Guiana Francesa
Os carregamentos de torianita deixavam os garimpos do interior do Amapá e seguiam por rodovia até Macapá. De lá, o material seguia por barco até Oiapoque e atravessava a fronteira para a Guiana Francesa. Navios transportavam o minério até países da África, da Ásia e do Oriente Médio. As investigações revelaram que o transporte utilizava rotas planejadas para dificultar o rastreamento pelas autoridades brasileiras.
Esquema conecta empresários, políticos e servidores públicos
A Polícia Federal identificou três grupos principais envolvidos na operação. O empresário João Luís Pulgatti e o canadense John Young lideravam a estrutura que movimentava técnicos, engenheiros, garimpeiros e intermediários. Diretores do Departamento Nacional de Produção Mineral, um procurador da República, um deputado estadual e um ex-deputado federal também foram citados nas investigações. Grampos revelaram que funcionários públicos orientavam os empresários sobre como fraudar pedidos de lavra.
Armazenamento clandestino aumenta risco de contaminação
A torianita era estocada em casas, galpões, postos de vigilância e terrenos na zona rural de municípios como Porto Grande, Serra do Navio e Pedra Branca do Amapari. A Comissão Nacional de Energia Nuclear realizou a remoção de parte do material para Poços de Caldas, em Minas Gerais. No entanto, os laudos apontaram risco de contaminação ambiental e de exposição da população.
Investigações registram preços e estratégias de ocultação
Os contrabandistas comercializavam o minério por valores entre 200 e 300 dólares por quilo. As transações utilizavam termos genéricos como “material pesado” ou “pedra” para ocultar a natureza radioativa do produto. Um dos estoques monitorados pelas autoridades continha até oito toneladas de torianita, com teores de urânio que ultrapassavam 8% por quilo.
Judiciário e órgãos de fiscalização enfrentam dificuldades
A Polícia Federal conduziu a Operação Ouro Negro em 2004 e realizou novas ações até 2006. Apesar das prisões e denúncias, a maioria dos envolvidos respondeu aos processos em liberdade. Somente em 2009 o governo federal estabeleceu regras mais rigorosas para a destinação de minerais radioativos.
Brasil mantém silêncio institucional sobre o caso
O governo brasileiro não enviou relatórios sobre o contrabando de urânio à Organização das Nações Unidas ou à Agência Internacional de Energia Atômica. A imprensa nacional limitou a cobertura ao período das primeiras apreensões. O episódio não gerou investigações internacionais nem responsabilizações políticas de alto nível.



