O cenário industrial da América do Sul tem passado por uma transformação significativa com o Paraguai consolidando-se como um polo de atração para o capital estrangeiro. Recentemente, grandes grupos como a DAS, fabricante de calçados para marcas como Nike e Adidas, decidiram migrar suas operações para o país vizinho, buscando fugir dos altos custos de produção brasileiros. Segundo o economista Pablo Spyer, o movimento é uma questão de resiliência: “As empresas não estão saindo daqui porque não gostam do Brasil, estão saindo porque querem sobreviver, precisam sobreviver”.
A Lei de Maquila como motor do investimento estrangeiro
O pilar dessa migração é a Lei de Maquila, criada em 1997, que permite que empresas estrangeiras importem máquinas e matérias-primas com suspensão de impostos aduaneiros, desde que o produto final seja destinado à exportação. Sob este regime, as fábricas pagam apenas um tributo único de 1% sobre o valor agregado no território paraguaio. Atualmente, mais de 230 empresas brasileiras já operam sob este modelo, representando cerca de 70% de todas as ‘maquiladoras’ instaladas no Paraguai.
Custos operacionais apresentam disparidade acentuada entre os países
A diferença de custos entre as duas nações é um dos fatores mais determinantes para os empresários. Enquanto no Brasil os encargos trabalhistas e impostos de uma fábrica podem ultrapassar 80%, no Paraguai esse índice fica próximo de 12%. Além da carga tributária reduzida, o país vizinho oferece energia elétrica mais barata (oriunda de Itaipu e Yacyretá), regras trabalhistas mais flexíveis e menor burocracia para movimentação de lucros e mercadorias. Spyer analisa que o Paraguai está se transformando no “novo paraíso industrial da América do Sul”, enquanto no Brasil, “Brasília aumenta o imposto, aumenta a burocracia e o custo da produção”.
Brasil perde espaço no crescimento econômico global
Os dados macroeconômicos reforçam a sensação de estagnação do setor produtivo brasileiro. Desde 1980, o PIB per capita global cresceu 675%, enquanto o do Brasil avançou apenas 428%, resultando em uma renda média nacional que hoje é inferior à média mundial. Se o país tivesse acompanhado o ritmo de nações que eram comparáveis nos anos 80, como a Coreia do Sul, a renda média do brasileiro poderia ser 42% maior do que os atuais 18 mil dólares anuais. Para Spyer, o Brasil tornou-se o “patinho feio da economia mundial” por ter perdido o bonde da produtividade e da globalização.
Proximidade geográfica facilita a integração logística
Além das vantagens fiscais, a logística desempenha um papel fundamental. Muitas fábricas brasileiras estão instaladas em cidades de fronteira, como Ciudad del Este e Hernandarias, o que permite uma integração eficiente com o mercado brasileiro e reduz custos de transporte. Os setores que mais lideram essa migração incluem o de confecções e têxteis, autopeças, plásticos e metalurgia leve. Pablo Spyer observa que a mudança se tornou uma ferramenta de gestão: “Hoje sair daqui é estratégia de negócios. Quem fica quebra, quem sai volta a lucrar”.
Modelo de exportação gera debates sobre desenvolvimento
Apesar do sucesso em atrair investimentos, o modelo não é isento de críticas. No Brasil, economistas alertam para o risco de desindustrialização em regiões de fronteira e a perda de postos de trabalho. Do lado paraguaio, críticos apontam que o regime de maquila gera pouco desenvolvimento tecnológico local, uma vez que muitas fábricas dependem excessivamente de insumos importados para apenas montar o produto final. Mesmo com as ressalvas, o governo paraguaio mantém sua política liberal de baixa intervenção para se consolidar como um hub industrial no Mercosul.



