23.8 C
Campo Grande
23/04/2026 - quinta-feira
spot_img
InícioCulturaDo Pantanal às Areias Capixabas

Do Pantanal às Areias Capixabas

Para alimentar a nostalgia pantaneira, resgatamos a trajetória de Tatiano Miguel, o artista sul-mato-grossense que colecionou histórias com os grandes da música

A vida de Tatiano Miguel é um mosaico de palcos, estradas e páginas escritas. Conhecido por sua versatilidade como cantor e escritor, ele hoje vive uma fase de tranquilidade em Cariacica, no Espírito Santo, onde reside a apenas uma quadra da estação ferroviária. De lá, ele contempla o passar dos trens que ligam o estado a Belo Horizonte, enquanto desfruta das belezas de Vitória, Vila Velha e Guarapari, convidando amigos para conhecerem as “praias bonitas” da região.

O “Cantor que não quis falar com Roberto Carlos”

Entre as inúmeras memórias que Tatiano guarda de sua carreira, uma das mais instigantes é a que ele descreve em seus registros como a história do “Cantor que não quis falar com Roberto Carlos”.

O Encontro que Quase Aconteceu: O “Não” ao Rei

A história que rendeu a Tatiano Miguel o título irônico de “o cantor que não quis falar com Roberto Carlos” aconteceu por volta de 1981, quando o “Rei” estava em Campo Grande para um show. Tatiano, fã confesso das composições e mensagens de Roberto, havia lançado a segunda edição de seu primeiro livro, “O Preço da Vida”, que continha uma pequena homenagem ao artista feita com títulos de suas músicas.

Decidido a entregar a obra pessoalmente, Tatiano foi ao Hotel Campo Grande (na Rua 13 de Maio, hoje restaurado). Uma secretária agendou o encontro para o dia seguinte, às 14 horas. Tatiano relata que mal conseguiu dormir de ansiedade com a perspectiva de conhecer seu ídolo.

O Bloqueio no Corredor

No horário marcado, quem desceu para recebê-lo foi Dedé, o lendário baterista que acompanhava Roberto Carlos desde a infância. Ao saber do livro, Dedé prontificou-se a subir e acordar o Rei para que ele recebesse Tatiano. Foi nesse momento que o inusitado aconteceu: tomado por um receio repentino do humor de Roberto ao ser acordado, Tatiano implorou para que Dedé não o fizesse.

A cena foi digna de um roteiro de comédia: enquanto o baterista insistia que deveria cumprir o horário marcado pelo artista, Tatiano chegou a segurar Dedé fisicamente no corredor do hotel, impedindo-o de subir. “Pelo amor de Deus, não acorda o homem não. Sabe lá que humor esse homem vai levantar para me atender?”, recorda Tatiano sobre o que pensou na hora. Ele acabou entregando o livro a Dedé para que fosse entregue em outra oportunidade e foi embora, perdendo a chance de falar com Roberto Carlos.

A Confirmação Anos Depois

Durante anos, Tatiano ficou em dúvida se o homem com quem falou era realmente da equipe de Roberto ou se fora enganado. A confirmação só veio com o advento da internet, quando ele assistiu a uma entrevista de Dedé no programa do Jô Soares e reconheceu o baterista, embora ele já estivesse mais idoso.

Hoje, morando no Espírito Santo, Tatiano brinca que vive perto de Itapemirim, cidade natal de Roberto Carlos, e pretende um dia visitar o museu do artista para ver se o seu livro, entregue há mais de 40 anos naquele corredor de hotel, ainda faz parte do acervo de memórias do Rei.

Este episódio, que ele descreve como uma mistura de timidez e respeito exagerado, tornou-se uma de suas histórias favoritas, justamente pelo fato de que, ao contrário de todo o Brasil, ele foi o homem que lutou para não falar com o maior ícone da música nacional

Histórias de Bastidores: De Ney Matogrosso ao “Loirinho” Michel Teló

A trajetória de Tatiano é rica em encontros com ícones. Ele recorda com detalhes o encontro com Ney Matogrosso na Rua Augusta, em São Paulo. Ney chegou a parar um ensaio para ouvi-lo cantar a música “Garça” e afirmou: “Essa música é para mim, rapaz”. No entanto, a falta de recursos e o casamento na época impediram que Tatiano seguisse com a parceria na capital paulista.

Com Almir Sater, a história vem dos festivais de 1979. Tatiano previu que “Trem do Pantanal” seria um sucesso nacional, mas lembra com humor de quando visitou a casa de Almir e foi “forçado” a ouvir um LP inteiro de músicas instrumentais, gênero que ele, na época, achava “enjoado”.

Sobre Michel Teló, as memórias remontam à infância do astro em Campo Grande. Tatiano conheceu o “Michelzinho” quando ele era um “loirinho danadinho” que jogava pedras nos carros perto da padaria da família. Anos depois, Tatiano chegou a ser um dos incentivadores para que deixassem o jovem Michel cantar em apresentações, prevendo: “Deixa o menino cantar porque ele vai ser muito mais famoso do que nós”.

Histórias com os Festivais

Tatiano Miguel possui uma trajetória marcante em festivais de música, que serviram como vitrine para seu talento e proporcionaram encontros com grandes nomes da música brasileira. Quanto à sua reputação vocal, embora as fontes não utilizem a frase exata “a mais bela voz do Brasil”, elas registram que ele recebeu alcunhas semelhantes e elogios de alto nível de diversas personalidades. A caminhada de Tatiano nos festivais começou de forma intensa e vitoriosa:

  • Festão (1979): Sua primeira participação em festivais foi no primeiro “Festão” de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Foi nesse evento que ele teve contato com Almir Sater, que participava com “Trem do Pantanal”. Tatiano recorda ter previsto na época que, embora a música de Sater não fosse para ganhar festival, ela se tornaria um sucesso nacional.
  • Festival da MPB de Ilha Solteira (12ª edição): Este festival teve uma característica inusitada: o palco foi montado dentro do rio, e o público precisava de barcos para chegar até o local. Tatiano teve um desempenho excepcional, classificando duas músicas: “Garça” (2º lugar) e “Menino do Sol” (3º lugar). Foi o prêmio em dinheiro deste festival que permitiu a ele gravar seu primeiro disco de vinil.
  • Sacrassom do Brasil: Logo após Ilha Solteira, ele venceu o 4º Festival Sacração do Brasil, conquistando o 1º lugar com a música “Profecia do Céu”.
  • A Conexão com Ney Matogrosso: O sucesso em festivais abriu portas importantes. O irmão de Ney Matogrosso, que estava no júri em Ilha Solteira, ficou tão impressionado com a música “Garça” que deu o endereço de Ney em São Paulo para Tatiano, afirmando que a canção era a cara do artista. Isso levou ao encontro histórico onde Ney, após ouvir Tatiano cantar à capela, confirmou: “Essa música é para mim, rapaz”.

A Alcunha e o Reconhecimento da Voz

O reconhecimento de Tatiano como uma das grandes vozes do país veio através de locutores, políticos e colegas de profissão que o acompanharam:

  • “O melhor cantor do Brasil”: Esta era a forma como o radialista e vereador Zé do Brejo o apresentava em seu programa sertanejo de madrugada, enquanto tocava a música “Garça”.
  • “Um dos maiores cantores do Brasil”: O político Plínio Barbosa, de quem Tatiano foi o artista principal em campanhas, costumava anunciar nos palcos: “Acabei de ouvir o dos maiores cantores do Brasil, Tatiano Miguel”. Ele chegou a confessar a Tatiano que o que dizia no microfone era a mais pura verdade.
  • Elogios da Crítica e Colegas: No início de sua carreira, o locutor famoso Cláudio Santos já o incentivava dizendo que sua voz era “muito bonita”. Até mesmo Gretchen, para quem Tatiano fez shows preliminares e com quem excursionou, elogiou seu talento vocal após ouvi-lo nos bastidores da exposição de Campo Grande.

Tatiano consolidou sua fama não apenas pelos prêmios, mas por sua habilidade em realizar shows de playback (sendo um dos pioneiros na técnica), onde sua performance era tão perfeita que o público muitas vezes achava que ele estava dublando, quando na verdade estava cantando ao vivo com uma voz impecável

A Vida entre Livros e a Fé

Além da música, Tatiano Miguel consolidou-se como escritor, publicando obras como “O Preço da Vida”, “Gotas de Sabedoria”, “O Palco do Mundo”, “Asas da Mente” e “Vivendo e Vencendo”. Sua inspiração vem de casa: sua mãe, Dona Maria, que aos 98 anos continua lúcida, leitora ávida e uma católica fervorosa que benzeu crianças por meio século.

Perspectivas no Espírito Santo

Após décadas de uma “correria” intensa que incluiu fazer 40 shows por mês em campanhas políticas para nomes como Francisco Maia e Plínio Barbosa Martins, Tatiano hoje prefere o ritmo das ondas e do trem em Cariacica. Ele olha para o passado com gratidão, lembrando dos jornalistas que apoiaram sua carreira, como Maurício Picarelli e Sérgio Cruz, mas encontra sua felicidade atual contribuindo para a felicidade alheia, seguindo seu próprio lema: “A primeira regra para ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros”.

spot_img
ARTIGOS RELACIONADOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -spot_img

Recentes

Comentários Recentes