O disco “Shamans in Space” chega a cerca de cinco mil lojas em vinil neste sábado (18/04) e coloca as rezas dos povos Guarani e Kaiowá do Cone Sul de Mato Grosso do Sul em diálogo com a música eletrônica britânica e o rap indígena contemporâneo. A partir de 1º de maio, o trabalho também estará disponível nas plataformas digitais. Todos os royalties serão destinados aos rezadores e rezadoras envolvidos no projeto, como forma de fortalecer a transmissão dos cantos sagrados em seus territórios.
Rezadores dirigem o projeto, não apenas participam
No centro do álbum estão as lideranças espirituais Nhandesy Roseli, Nhandesy Fausta e Nhanderu Tadeu, que definem os limites, orientam os caminhos e preservam a integridade dos cantos. As rezas sagradas aparecem em sua forma pura, sem interferência, e um QR Code no encarte do vinil direciona o público para cerca de 15 minutos desse registro. Os cantos autorizados para experimentação, como os guahú e guaxiré, ligados à alegria e à conexão com os espíritos da mata, dialogam com a música eletrônica nas demais faixas. A coordenadora Fabi Fernandes ressalta que a metodologia rompe com práticas comuns de exploração cultural: “A gente fez questão de que tudo seja construído com os anciãos, etapa por etapa. Eles são os diretores de tudo. Não é só colocar o nome deles como coautores, é garantir que a decisão final seja sempre deles. Isso muda completamente a forma de produzir arte e conhecimento”.



Rap indígena transforma palavra em flecha e memória
O rapper Kelvin Mbaretê, membro fundador do Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena do Brasil, integra o projeto e conecta a luta política à espiritualidade ancestral. “A música deixa de ser só música. Ela vira reza, vira mensagem, vira cura. O rap sempre foi minha arma de luta, mas os cantos sagrados são a voz dos nossos ancestrais. Quando essas duas forças se encontram, tudo muda”, afirma. Como neto de rezadores, Kelvin descreve sua relação com o som além da técnica: “Eu não penso só no beat ou na rima. Eu penso na energia, no que aquela música vai levar pra quem escuta. É como se cada som tivesse um propósito maior”. Para ele, cantar em guarani é também um ato territorial: “A nossa língua é o nosso DNA. Mesmo quem não entende as palavras sente a energia. Ela vira ponte entre culturas. E mostra que a nossa língua pode viajar o mundo sem perder a raiz”.
Produtor de Paul McCartney e Pink Floyd encontra xamanismo no estúdio
O produtor britânico Martin “Youth” Glover, que integra a banda de Paul McCartney e assina a produção do último álbum do Pink Floyd, com colaborações que incluem U2, Guns N’ Roses e The Verve, conduz a direção musical do projeto. Para ele, o encontro com os rezadores desloca o processo criativo para outro campo: “Sempre senti que o som tem um efeito de cura e regeneração. O que me interessa é criar uma espécie de alquimia xamânica entre todos os envolvidos. A música pode nos reconectar com nós mesmos, com a Terra e com o cosmos”. Youth descreve a experiência como transformadora: “A ideia de transformar o estúdio em um espaço mais próximo de um ritual ou de uma cerimônia, onde tocamos juntos, guiados por essas tradições, é algo profundamente inspirador”.
Ninja Tune, The Clash e um violino que atravessa mundos
O cofundador da Ninja Tune e pioneiro da cultura do sampling, Matt Black, e o músico Tymon Dogg, figura ligada ao universo do The Clash, completam o grupo de artistas britânicos. O violino de Dogg, historicamente associado à música erudita europeia, constrói uma ponte com os cantos sagrados sem apagar as diferenças entre as tradições. O resultado, segundo Fabi Fernandes, nasceu de uma escuta que superou a barreira das línguas: “Foi um grande desafio construir essa ponte, justamente por serem mundos muito distintos. Mas quando a gente se permite sentir e trocar na diferença, a gente percebe o quanto também somos iguais. Mesmo sem compartilhar a mesma língua, o som virou uma linguagem comum. Foi ali que o diálogo aconteceu”.
Pesquisa internacional une UCL, UEMS e saberes ancestrais
O álbum é fruto do projeto Sounding Futures, desenvolvido em parceria entre o UCL Multimedia Anthropology Lab da University College London, o Instituto para o Desenvolvimento da Arte e da Cultura (IDAC) e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). A coordenadora Raffaella Fryer-Moreira situa o trabalho no campo de uma nova forma de produzir conhecimento: “Esse trabalho nasce de uma investigação sobre como fazer pesquisa de outras formas, mais abertas, colaborativas e acessíveis. Ao trazer o som como ferramenta central, o projeto questiona a divisão entre arte e ciência e mostra que a música também pode ser uma forma de conhecimento”. Raffaella recorre ao conceito guarani de Mba’ekuaa para traduzir o que os anciãos trazem ao projeto: “Quando os anciãos dizem ‘esse é o nosso Mba’ekuaa’, eles estão falando de um saber fazer, de uma tecnologia própria. Assim como usamos câmeras e microfones, eles utilizam o som, a reza. São formas diferentes de produzir conhecimento e de se relacionar com o mundo”. A gravadora Liquid Sound Design, selo independente britânico da cena de música eletrônica psicodélica, é responsável pela produção e distribuição do disco.
Com informações: Assessoria



