A imagem que ilustra a abertura desta reportagem foi tirada na rua P. João Crippa, centro de Campo Grande, pouco antes das 9h da manhã, em março deste ano. Foi nesse mês que o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas para População em Situação de Rua registrou 1.091 pessoas vivendo em situação de rua em Campo Grande; 1.064 constavam no CadÚnico. É o recorte municipal de um estudo nacional (divulgado pela imprensa local). Os dados mais recentes estão na tabela abaixo:

O que se observa em Campo Grande é apenas reflexo de um problema nacioanal. O número de pessoas em situação de rua no Brasil mais que dobrou nos primeiros meses do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (UFMG). Em dezembro de 2023, eram estimados cerca de 160 mil moradores de rua em todo o país; em 2025, esse contingente saltou para aproximadamente 345 mil, um aumento de mais de 100% em pouco mais de um ano.

O Plano “Ruas Visíveis”, lançado pelo governo em dezembro de 2023 com investimento previsto de R$ 1 bilhão e articulação entre 11 ministérios, tinha o objetivo de enfrentar a miséria urbana por meio de ações nas áreas de assistência social, segurança alimentar, saúde, trabalho, habitação e renda, além de promover um censo nacional sobre essa população. Apesar das intenções declaradas, os resultados práticos foram insuficientes para conter a escalada do problema, o que revela a total falta de competência do governo para tratar um assunto grave.
Distribuição geográfica e perfil demográfico
O aumento foi desigual regionalmente. Mais de 60% dos moradores de rua concentram-se na Região Sudeste, enquanto a Região Norte responde por menos de 5% desse contingente. Entre os estados, São Paulo lidera com 146.940 pessoas em situação de rua, seguido por Rio de Janeiro (31.693), Minas Gerais (31.410), Bahia (15.045) e Paraná (13.854).
No plano demográfico, o levantamento destaca que:
- Cerca de 85% são homens;
- Aproximadamente 70% se declaram negros;
- Há quase 10 mil crianças e adolescentes com menos de 17 anos;
- E cerca de 32 mil idosos acima de 60 anos estão nessa condição.
A maioria dessas pessoas vive em locais informais como calçadas, praças, viadutos e construções improvisadas, sem acesso a abrigos ou estrutura adequada.
Causas apontadas para o aumento
Especialistas, incluindo pesquisadores da UFMG e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indicam alguns fatores que ajudam a explicar o fenômeno:
- Crise econômica e inflação persistente, com perda de renda e informality crescente;
- Déficit habitacional, aliado à lentidão na implementação de projetos de moradia popular;
- Demora na execução de políticas públicas de acolhimento, saúde e reinserção social;
- Consequências da pandemia, com maior vulnerabilidade social e desemprego informal.
Em alguns levantamentos, o crescimento é atribuído também à melhor identificação das pessoas em situação de rua por meio do Cadastro Único, e ao fato de que medidas judiciais impediram remoções compulsórias — conforme apontado por cientistas políticos — embora o debate sobre a eficácia do Plano Ruas Visíveis permaneça acalorado.

Minha opinião
O aumento vertiginoso de pessoas vivendo nas ruas não é um acidente, nem uma falha técnica passageira: é o resultado lógico de um governo que ignora a realidade econômica e social do país. Chamam isso de “Plano Ruas Visíveis”, como se apenas dar visibilidade a um problema resolvesse a miséria. Ora, se visibilidade fosse solução, todos os problemas desapareceriam com uma boa foto no Instagram.
Os números são eloquentes e não deixam margem para a narrativa oficial. Mais de 100% de aumento em pouco mais de um ano, e mesmo assim nos tentam convencer de que tudo se deve a melhor coleta de dados. É a velha técnica lulista: transformar desastre em performance administrativa. Não se trata de melhor identificação, mas de um governo que estimula a informalidade, prolonga o déficit habitacional e deixa a economia definhar com políticas intervencionistas e desastrosas.
Observe-se a distribuição geográfica: mais de 60% no Sudeste, com São Paulo liderando isoladamente. Não é coincidência. O Sudeste concentra a maior densidade urbana e econômica, mas também concentra as políticas públicas mais falhas, as prefeituras mais complacentes e os efeitos de uma burocracia que paralisa qualquer iniciativa eficiente. Enquanto isso, a Região Norte quase não registra crescimento, justamente porque mantém menor interferência estatal e uma economia mais direta e pragmática.
Quanto ao perfil demográfico, novamente temos dados que só reforçam a brutalidade do quadro. Setenta por cento negros e 85% homens não são apenas estatísticas; são a fotografia social de décadas de políticas assistencialistas que separam grupos, distribuem privilégios e, paradoxalmente, aumentam a exclusão real. Crianças, adolescentes e idosos vivendo nas ruas revelam o fracasso completo daquilo que chamam de “proteção social”.
Os especialistas tentam explicar com “crise econômica, inflação, déficit habitacional e consequências da pandemia”. Nada disso é novidade; o que muda é quem governa. A mesma crise sob outro governo resultaria em medidas eficientes e mitigadoras. Aqui, sob Lula, a política deliberadamente se alia à decadência, usando a miséria como instrumento de poder e propaganda.
Em resumo, não se trata de uma tragédia natural ou de falha isolada: trata-se da consequência inevitável de um projeto político que transforma o país em um palco de desordem social crônica. O jornalismo, ao noticiar esses dados, ainda não consegue perceber que os números não são meramente informativos: são uma acusação silenciosa contra o governo.



